A carta que nunca enviei ao meu pai (que partiu em 2017)
Pai,
Escrevo esta carta que nunca vou te enviar. Não porque não queira, mas porque já não há endereço para onde mandar. Partiste em 2017. E desde então, tudo o que ficou por dizer ficou guardado em mim.
Não fui uma criança pequena quando comecei a viver contigo. Já era rapaz. Já entendia as coisas. E talvez tenha sido por isso que doeu mais. Porque eu já sabia o que via. Já entendia o que ouvia. Já percebia o que aquilo significava.
Eu tinha medo de ti. Não um medo de criança que teme um castigo. Um medo de quem vê um homem gritar e não sabe o que esperar. O medo de quem vê o álcool mudar o teu rosto. O medo de quem, muitas vezes, não sabia se devia falar ou calar.
Eu me lembro das noites em que tu chegavas e a casa ficava em silêncio. Não um silêncio de paz. Um silêncio de quem espera que algo aconteça. Eu já era grande o suficiente para sentir tudo. E guardei.
Eu não te culpo por tudo. Sei que a vida não foi fácil para ti. Sei que carregaste coisas que nunca me contaste. Mas o que eu vivi ficou comigo. E ainda hoje, quando ouço alguém gritar, sinto uma coisa no peito que não sei explicar.
Mas também tenho que ser justo contigo. Porque tu me ensinaste coisas. Ensinaste-me a trabalhar. Ensinaste-me a ser forte. Ensinaste-me, mesmo sem querer, o que eu não queria ser. E isso também é uma forma de ensinar.
Hoje, quando olho para trás, vejo um homem que não sabia amar da forma que eu precisava. Mas vejo também um homem que, à sua maneira, tentou. Talvez tenha sido o melhor que conseguiste. Talvez tenhas dado o que tinhas.
Eu te perdoo. Não porque tu pediste. Mas porque eu precisei. Guardar rancor é como carregar uma pedra que só pesa em mim. E eu já carreguei muita coisa. Quero descansar.
Não sei se vais ler esta carta. Provavelmente não. Mas escrevi-a para mim. Para o rapaz que fui. Para o homem que me tornei. Para que a história não se repita.
Obrigado pelo que me deste. Perdoa-me pelo que não te disse. E que Deus te abençoe, onde quer que estejas.
Com amor,
O teu filho.
