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Por que escrevo não ficção num mundo que prefere ficção?

Por que escrevo não ficção num mundo que prefere ficção?

Vivemos num mundo em que a ficção ocupa um lugar privilegiado. Os romances conquistam leitores, as séries contam histórias inventadas e, muitas vezes, procuramos nos livros e nos ecrãs uma forma de escapar à realidade, ainda que por algumas horas.

E eu escolhi escrever não ficção.
Histórias reais. Acontecimentos que marcaram vidas. Pessoas que existiram. Experiências que deixaram marcas.
Por quê?
Porque acredito que a verdade, quando bem contada, tem a força de um romance — e, por vezes, consegue surpreender-nos ainda mais.
Quando escrevi Antes do Atlântico: Uma História Real, não precisei de inventar personagens nem acontecimentos para construir uma narrativa. As pessoas existiram. Os lugares existem. As experiências foram vividas. As emoções foram sentidas.
E, ainda assim, há leitores que dizem que a história parece ficção.
Talvez porque a realidade nem sempre corresponda àquilo que imaginamos. A vida é capaz de nos colocar diante de acontecimentos tão improváveis, dolorosos ou extraordinários que, quando os contamos, quase precisamos de provar que realmente aconteceram.
Escrevo não ficção porque há histórias que precisam de ser contadas antes que desapareçam com o tempo e com aqueles que as viveram.
A minha é uma delas. A de milhares de moçambicanos que atravessaram fronteiras e oceanos também. E as histórias das mulheres cujas vozes procuro acolher no meu próximo livro, Levanta-te, Mulher, também merecem ser ouvidas.
Escrevo porque a memória é frágil. Se eu não registar o que vivi, quem poderá conhecer a minha história? Se não contarmos as histórias de quem veio antes de nós, o que restará das suas experiências, dos seus sacrifícios e dos seus sonhos?
Escrevo porque acredito que a memória não pertence apenas a quem viveu os acontecimentos. Ela também pode iluminar a vida de quem vem depois.
Escrevo porque o mundo precisa de histórias verdadeiras contadas com honestidade, sensibilidade e coragem. Histórias que nos ajudem a compreender quem somos, de onde viemos e o que tantas vezes permanece invisível aos olhos dos outros.
E escrevo porque, no fundo, todos tentamos encontrar palavras para dar sentido àquilo que vivemos. A diferença é que, na não ficção, temos a responsabilidade de respeitar os acontecimentos e as pessoas reais por trás de cada página.
Não escrevo para fugir da realidade. Escrevo para que ela não seja esquecida.
Por isso, se também escreves, não te desculpes pelo género que escolheste. Há histórias que nascem da imaginação; outras nascem da vida. Ambas podem emocionar, ensinar e transformar. Mas há memórias que só continuarão vivas se alguém decidir registá-las.
O mundo precisa de memória. Precisa de vozes que não se calem. Precisa de histórias que nos permitam reconhecer a humanidade uns dos outros.
E talvez a tua história também precise de ser contada.
📖 Antes do Atlântico: Uma História Real está disponível na Amazon.
📸 Segue-me no Instagram: @imatsinhe22

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